Expressividade Gestual de Instrumentos Musicais Eletrônicos

Os instrumentos musicais eletrônicos abriram novas possibilidade de criação musical, permitindo a criação de sons que não mais estavam relacionados com a forma do instrumento ou à um material. Isso abriu a possibilidade de se criar sons nunca antes imaginados que revolucionaram a música, e diversas outras áreas como o cinema e a publicidade. Estes instrumentos ampliaram as possibilidades de se gerar sons, mas restringiram a expressividade corporal de quem os tocava. Estes sons já estão inseridos nos mais diversos gêneros musicais e talvez caracterizam os principais timbres das músicas mais ouvidas atualmente. Os instrumentos eletrônicos, no entanto, raramente são identificados pelo público como geradores destes sons ou apresentados com um destaque nos palcos e videoclipes.

Eddie Van Hallen tocando guitarra pulando fonte: https://weheartit.com/entry/71300505

O desenvolvimento da tecnologia de síntese musical, analógica ou digital é geralmente acompanhado de interfaces bastante restritas. Um sintetizador, sampler ou drum machine geralmente é tocado por um mouse e teclado de um computador, teclados semelhantes ao do piano, botões ou botões e knobs. A tradição de instrumentos musicais mais antiga traz uma gestualidade muito mais ampla, com gestos amplos que têm relações identificáveis com os sons produzidos. Para trabalhos em estúdio essas interfaces reduzidas podem ser mais eficientes, mas carecem de um importante aspecto da performance musical que é a expressividade gestual. Instrumentos como uma guitarra, violino ou pandeiro permitem que se estabeleça uma relação mais forte entre o que o público vê e o que ouve, que raramente acontecem nas apresentações com instrumentos eletrônicos.

Roli Blocks, Fonte: www.thomann.de

Existem novas interfaces musicais que estão surgindo com uma relativamente boa presença no mercado de instrumentos musicais como o Roli Blocks, o Sensel Morph, o Touché e o Linnstrument. Eles trazem novas interfaces que permitem novas relações gestuais com os instrumentos eletrônicos, mas seguem a mesma tradição de se preocupam apenas com a expressividade dos dedos e não de todo o corpo. Eles ampliam a expressividade sonora e se associam às tradições ligadas aos sintetizadores, mas ignoram um aspecto que pode ser fundamental para atingir o grau de popularidade que a guitarra ainda tem. A guitarra além de ter sons de altíssima qualidade e expressividade é um instrumento muito físico, que frequentemente está na linha de frente dos palcos, tem closes durante os videoclipes e a expressividade gestual do guitarrista é um fator importante para a qualidade de um show. Há inclusive festivais internacionais de “Air Guitar”, onde artistas se apresentam sem uma guitarra simulando que estão tocando e são avaliados pela expressividade gestual.

Mulher tocando “Air Guitar” fonte: http://ironstoneamphitheatre.net/wired/

O mercado de instrumentos musicais depende de um sistema muito complexo e que deve ser visto como um todo para ter sucesso. Ele pode ser potencializado pelo destaque de músicos que toquem estes instrumentos, e para isso é importante que além de ouvidos eles sejam vistos. A preocupação com a expressividade gestual de um instrumento além de potencializar a experiência das performances musicais ela pode contribuir com a valorização da cultura do instrumentista eletrônico, gere um maior interesse das novas gerações em tocar estes instrumentos e aumente o seu mercado consumidor.

Os instrumentos eletrônicos nunca tiveram tanta liberdade para a sua criação, qualquer controle pode estar relacionado a quaisquer parâmetros de qualquer sintetizador. É possível criar instrumentos de todos os tamanhos para serem controlados com quaisquer gestos. Talvez por estar preso a uma tradição ou por buscar instrumentos cada vez menores, portáteis e baratos, os principais fabricantes de instrumentos eletrônicos seguem sistematicamente desprezando a relevância da expressividade gestual dos instrumentos. O design de telefones celulares seguiu um caminho de constante miniaturização até um limite que ficou óbvia a necessidade de interfaces maiores para facilitar o controle e a visualização. Qual será o limite que o desenvolvimento de instrumentos musicais digitais seguirá até voltarem a considerar outros gestos corporais?

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