Pandivá: instrumento híbrido pernambucano

No post anterior, falamos sobre o conceito de instrumento híbridos, ou seja, novos instrumentos que herdam características de dois ou mais instrumentos existentes. Hoje, vamos mostrar um novo instrumento musical digital que herda elementos de três instrumentos distintos: o pandeiro, a guitarra e o trombone de vara. Trata-se do Pandivá, ou Pandeiro de Vara, desenvolvido pelo pesquisador industrial do ISI-TICs, Filipe Calegario, durante seu doutorado em Ciência da Computação.

O objetivo do instrumento foi ampliar as possibilidades expressivas dos gestos de tocar pandeiro, permitindo que o ritmo da mão também pudesse ser usado para controlar o disparo de acordes. Assim, o pandeirista, ao adaptar seu repertório gestual, poderia navegar pelo universo harmônico além do rítmico.

Adicionalmente, um conceito importante incorporado no Pandivá é o de transparência com o público, isto é, permitir que o público veja tudo o que está sendo tocado pelo artista. Essa é uma reflexão sobre a grande popularidade de controladores musicais, principalmente de DJs, que são posicionados em cima da mesa (postura tabletop). Muitas vezes, o público não consegue ver o que está acontecendo nem consegue relacionar qual gesto está disparando determinado som, causando uma desconexão plateia-artista.

Para que o público pudesse ver o instrumento sendo tocado, a inspiração foi a forma de se segurar uma guitarra, inclusive utilizando uma correia para liberar o movimento das duas mãos do artista. Além disso, o pesquisador se inspirou nas diferentes áreas da pele do pandeiro, transformando-a em três áreas de contato com sensores digitais. Para selecionar a escala de notas ou acordes, nas primeiras, a inspiração foi da vara de um trombone. Alterando o comprimento da vara, o instrumentista poderia alterar a altura da nota (mais agudo ou mais grave). Durante o processo de desenvolvimento, o Pandivá sofreu algumas alterações, tendo sido substituído, por exemplo, o uso contínuo da vara para um controle discreto com botões.

Em 2018, o Pandivá foi utilizado na abertura do Carnaval de Recife durante a participação do grupo Pachka+Batebit no espetáculo Frevo para o Mundo do Quinteto Violado. Para um público de mais de 10 mil pessoas, o instrumento foi usado para tocar trechos de vídeos de Capiba (renomado compositor de frevos pernambucanos) e de orquestras de frevo, resultando em uma composição dinâmica e inusitada de trechos de músicas existentes.

 

Instrumentos como esse, além de diretamente trazerem novos caminhos expressivos para a música, têm a vantagem de já partir de um lugar conhecido para músicos e instrumentistas. Hoje em dia, com a revolução digital e a popularização de plataformas como Spotify, a receita principal dos artistas está associada a shows, espetáculos e performances artísticas. Por isso, é importante ter em vista formas inovadoras de cativar o público, que vão além do uso óbvio de iluminação e sonorização massiva. Novos instrumentos ativam a curiosidade do público e associam a imagem do artista a iniciativas inovadoras. No momento em que um artista usa um novo instrumento de forma expressiva, ele cativa um potencial público consumidor daquele instrumento. Assim, o ciclo de novos mercados pode se iniciar.

A indústria brasileira de instrumentos musicais precisa estar atenta a novas tecnologias que podem potencializar novos públicos. A concepção e o desenvolvimento de novos instrumentos com grandes artistas pode ser uma boa estratégia para se tornar pioneiro de novos mercados.

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