Herança Instrumental

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Na história e evolução dos instrumentos musicais, existem instrumentos que herdam propriedades de instrumentos já existentes. É o caso do piano, que herdou as teclas do cravo (instrumento do período medieval de cordas pinçadas), que por sua vez as herdou dos órgãos de igreja. Outro exemplo é a guitarra elétrica que absorveu várias características do violão, como a presença de um corpo e um braço, a quantidade e a afinação das cordas e a posição dos trastes. Pela familiaridade, vários violonistas já podiam pegar uma guitarra e tocar, se adaptando às diferenças, mas partindo de um caminho já conhecido.

Essas heranças instrumentais são bastante importantes para a adoção de novos instrumentos, já que todo um repertório de gestos, formas de tocar, maneiras de aprender podem ser transferidos imediatamente de um instrumento familiar para um novo instrumento. Um músico que investiu muitas horas para aprender um instrumento A, pode, por exemplo, adotar um instrumento B, que tenha herdado características de controle de A, e se desenvolver muito mais rápido.

Um bom exemplo dessa estratégia de adoção é o sucesso e a popularização dos sintetizadores Moog, criados na década de 60. Um sintetizador não precisa necessariamente ter um teclado para disparar notas. Porém, Bob Moog escolheu colocar o padrão de teclas de um piano nos seus instrumentos. Isso fez com que vários músicos vissem o sintetizador como uma interface conhecida com a qual já tinham intimidade e já poderiam tocar. Foi o caso de Wendy Carlos, que em 1968 lançou o álbum Switched-On Bach, no qual vários clássicos de Bach foram interpretados em um sintetizador. Esse foi um importante álbum para a popularização do uso de sintetizadores na música.

Capa do álbum Switched-on Bach de Wendy Carlos. Fonte: http://www.openculture.com/2018/10/wendy-carlos-switched-on-bach-turns-50.html

Por outro lado, os sintetizadores Buchla, que implementam uma interface de controle alternativa, foram adotados por uma comunidade mais restrita de músicos experimentais. Don Buchla, inventor desse instrumento, achava que era preciso se libertar das referências de interface de controle existentes para se alcançar uma nova forma de fazer música. É de fato uma abordagem interessante e criativa, porém pode fazer com que a adoção do novo instrumento leve mais tempo.

Ao se criar um novo instrumento, é preciso levar em conta os ganchos culturais existentes e como o objeto em si se relaciona com repertórios musicais e gestuais existentes, formas de tocar e de aprender, eventos e gêneros musicais, além dos músicos, artistas, intérpretes.

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