Instrumentos Musicais Digitais

Pensando tecnicamente, o instrumento musical pode ser entendido como um artefato que permite controlar parâmetros sonoros para se produzir música. Mas o que são esses parâmetros? Podem ser a altura de uma nota, ou seja, mais aguda ou mais grave; a intensidade ou volume do som, sendo mais fraco ou mais forte; e o timbre, que faz a gente distinguir o som mais metálico ou vindo de uma madeira, por exemplo.

Nos instrumentos acústicos, o instrumentista controla esses parâmetros fisicamente no material: soprando o bocal de uma flauta, dedilhando uma corda ou golpeando a pele de um instrumento de percussão. Em um violino, por exemplo, a posição do dedo no braço do instrumento define o comprimento da corda que vibra ao ser excitada pelo arco. A vibração é transmitida ao cavalete, que, por sua vez, transmite para o corpo do instrumento, que amplia e ressoa o som. Nesse caso, o controle e o som estão emaranhados em um só evento físico. Há a transferência de energia da mão do instrumentista para o instrumento.

Nos instrumentos elétricos, existe uma analogia entre a oscilação de um material, sua conversão para sinais elétricos e o som produzido. Os sinais elétricos são amplificados e transformados em ondas sonoras pela indução eletromagnética de alto-falantes. Tais instrumentos permitem uma grande gama de modificações sonoras pela manipulação dos sinais elétricos. Ao longo da história e ainda hoje, há uma grande experimentação timbrística com a guitarra elétrica associada a amplificadores e pedais e com dos sintetizadores analógicos. Porém, ainda nesse caso, o controle e o som estão intimamente ligados pelo evento físico.

Os instrumentos digitais trazem consigo uma peculiaridade de possibilitar a ruptura entre o controle gestual e a síntese sonora. Isso acontece pois o mapeamento entre entrada e saída, diferentemente dos instrumentos anteriores, é feita de forma digital. Ou seja, o gesto do usuário (ex: apertar um botão, dedilhar uma corda etc.) é convertido em um número, em vez de ser um evento mecânico ou um sinal elétrico. O dado digital que permite um grau muito mais detalhado de manipulação simbólica. Isto é, em vez de lidar com circuitos elétricos, é possível programar o comportamento dos instrumentos usando linguagem de programação.

Essas ligações simbólicas entre controles gestuais e os parâmetros de síntese sonora são feitas seguindo uma estratégia de mapeamento. Trata-se de um conjunto de regras que definem como cada saída sonora se comporta a partir das entradas gestuais. Dessa forma, o que antes era restrito ao tamanho do material ou de propriedades físicas, agora pode ser construído e definido com uma maior liberdade. Ou seja, é possível tocar um som bem grave apertando um botão bem pequeno. Tal liberdade de concepção e desenvolvimento gera possibilidades que ainda não foram totalmente exploradas. 

Nos próximos posts, vamos mostrar exemplos de instrumentos musicais digitais e o grande potencial expressivo do seu uso.

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